O sábio e o gnóstico (1ª parte)

wisdom

gnostic

Entendemos por sabedoria uma visão verídica e aberta que versa de certa forma sobre a totalidade da realidade, tanto em termos teóricos quanto morais, e que seja, segundo a expressão de Platão, “sinótica,” vendo as coisas nas suas mais íntimas conexões. A tradição cristã ensina que ela existe em três modalidades em ordem ascendente: sabedoria filosófica, sabedoria teológica e sabedoria mística. Sobre elas, falaremos mais na segunda parte deste ensaio. Tentativas de separar as três, ou até de reduzi-las a uma só delas, resultam em toda uma série de confusões conceituais e até (segundo as ortodoxias semíticas) heresias. Eminente entre estas é o gnosticismo.

Embora que suas manifestações sejam proteicas, evidencia-se sempre com algumas características típicas: estas podemos destacar nitidamente da sabedoria propriamente falando. É o que proponho fazer aqui. Muitas vezes pessoas bem-intencionadas nem sabem que estão seguindo um mestre ou uma filosofia que se comprometeu – pelo menos no espírito – com teses ou tendências gnósticas. O embuste é que essas teses são muito adeptas de camuflagem. Vivemos em um mundo repleto de ofertas de iniciação gnóstica das mais variadas. Por isso precisamos investir primeiro no trabalho de cortar pelo matagal delas; só depois poderemos enxergar a clareira sapiencial, e identificar seu caráter triádico.

A palavra grega, gnosis, é simplesmente um de um punhado de vocábulos que significam conhecimento (alguns outros seriam theoriaaisthesisepistemedoxa, cada um com um viés especial). A palavra gnosis é o termo de uso geral, como nosso “conhecimento.” Ocorre mais de 25 vezes até no Novo Testamento, e só uma vez em sentido pejorativo (mais sobre isso depois). Português, aliás, também tem outros termos mais específicos para conhecimento, como teoria, percepção, ciência, opinião, intuição, etc.  De fato, cada idioma terá sua coleção de palavras cunhadas para tentar capturar a natureza fugaz dessa realidade que chamamos conhecimento, e de itemizar suas espécies.

O termo grego, no entanto, foi de certo modo “sequestrado” por algumas correntes filosóficas/religiosas dos primeiros séculos cristãos. Mesmo quando se colocaram em contraposição à Igreja Cristã, quase sempre se entenderam como uma radiografia das verdades esotéricas do cristianismo, encobertas pela igreja oficial. Esta gnosis desmascarada foi vista simplesmente como o âmago profundo da mensagem de Cristo, abaixo das aparências dos credos e ritos (o que foi o caso com o famoso Valentino). Os gnósticos tentaram efetivar um isolamento de certo tipo do conhecimento, “destilando” ele das demais fontes de cognição que ficam atreladas tanto aos credos teológicos, quanto às fontes de conhecimento filosófico: os sentidos e o senso comum, como também outras dimensões da experiência humana (em particular, a volitiva e a emocional).

*** Cabe observar, na defesa de pelo menos alguns gnósticos, que embora que o credo e as crenças rudimentares do cristianismo já foram bem articuladas, a teologia cristã não existia em uma forma definida e sistemática no segundo e terceiro séculos. Alguns gnósticos simplesmente tentaram montar uma reflexão racional, ou seja teológica, em cima dos artigos da fé. Não podiam aproveitar dos esclarecimentos dos concílios ecumênicos dos séculos vindouros, nem dos escritos dos capadocianos, do Agostinho, nem falar dos escolásticos posteriores. Então, não é o caso de simplesmente desprezá-los. Todavia, ideias têm consequências. A Igreja achou certas ideias deles necessitadas de correção por terem consequências menos desejáveis para quem quiser abrir-se à verdade. São as ideias gnósticas e não as pessoas que criticamos em seguida. ***

Este conhecimento “espiritual e transformador” foi apresentado como um tesouro esotérico tanto sagrado quanto segredo – mas um tesouro possuído exclusivamente por certos escolhidos e depois transmitidos a outros apenas através de certos cursos de longa duração ou por ritos iniciáticos. Na esperança de incorporar cristianismo nessa doutrina, Cristo foi apresentado sim como alguém enviado pelo Deus supremo, porém não para salvar o homem na sua totalidade alma e corpo, e do mundo em que ele vive. Pelo contrário, a missão do Cristo era, segundo eles, a de resgatar seu espírito interior da matéria e do domínio do “outro deus,” aquele que foi responsável pela produção do mundo físico, para começar: o Demiurgo (por vezes identificado como o Yahweh do Antigo Testamento).

demiurge-art-em

Os estudiosos, em grande parte, rejeitam a ideia de um único movimento, mas vêem o “gnosticismo” – a denominação é moderna – como “termo guarda-chuva” para várias tendências e ideias que circulavam dentro e fora do cristianismo primitivo. Na verdade, constitui um paradigma permanente para a reflexão humana, surgindo repetidamente na história.

Para o gnóstico, o conteúdo da gnosis ensinada de certa forma espelha, objetivamente, uma luzinha espiritual que jaz, subjetivamente, nas profundezas do ser humano. O paradigma do projeto gnóstico manifesta-se em vários tipos de esoterismo (cristão, judeu e islâmico), mas também, mutatis mutandis, no hermetismo, catarismo, platonismos renascentistas, Rosa Cruz, Maçonaria, Teosofia, Antroposofia e perenialismo, para mencionar só os mais conhecidos. Também algumas das religiões organizadas se apresentam, explicitamente, como detentores dessa chave de harmonização de todas as tradições: em certo sentido o próprio Islã, mais evidentemente no Mormonismo e no Bahaísmo. Porém, quer se trate de uma seita esotérica ou de uma religião mais organizada, o que é oferecido é uma única cachaça destilada de uma multidão de bebidas fermentadas, só aparentemente diferentes.

O maniqueísmo, ao qual Sto. Agostinho aderiu por uns nove anos, é uma articulação especialmente bem sucedida, embora que diferente em alguns detalhes. Não obstante, a orientação geral fica gnóstica segundo os parâmetros que esboçaremos aqui. O interesse nessas correntes ganhou um enorme estímulo pela descoberta, em 1945, em Naga Hammadi, no Alto Egito, de manuscritos gnósticos que remontam pelo menos ao séc. 4º d.C. Embora que essa considerável “biblioteca Nag Hammadi” abriu novos caminhos de pesquisa na interpretação dos textos sobreviventes, possibilitando uma descrição mais diferenciada de várias correntes gnósticas, tanto de pensamento quanto da mística, o cerne do gnosticismo estudado ficou inalterado nos seus traços fundamentais.

Semelhante ao caso dos Manuscritos do Mar Morto, descobertos pouco tempo depois, muitos especialistas da época proclamaram que os achados iriam mudar para sempre nosso entendimento, tanto do Antigo Testamento neste caso, quanto do Novo pelas descobertas egípcias. Agora mais de 70 anos depois, o consenso dos eruditos se distancia cada vez mais das declarações precipitadas dos primeiros anos. (ler Philip Jenkins: http://www.asor.org/anetoday/2017/10/revolutionary-biblical-discoveries)

Vamos isolar apenas três aspetos que parecem imprescindíveis para entendermos a natureza dessa ideologia/filosofia/teosofia tão tenaz na história dos últimos dois milênios. Ceteris paribus, achamos essas características in todos os variantes:

1) O aspecto ponerológico/cosmogônico (ou seja, o que diz respeito à natureza do mal, e à origem do cosmos – no gnosticismo, inextricavelmente ligadas):

Uma orientação gnóstica propõe uma resolução do problema do mal através de sua identificação com uma realidade substancial, seguido por uma narrativa sobre o processo cosmogônico que a produziu. O mal não é, como os cristãos iriam dizer, uma privação do ente; tudo ao contrário, é algo. Esta positividade do mal possibilita aquilo que, na tradição cristã sempre foi visto como impossível: um verdadeiro  conhecimento do mal. Na revelação cristã, o mal e o pecado carecem de “razões,” e por não serem entidades criadas por Deus (e só existem entidades criadas por ele!), carecem uma coerência ontológica capaz de ser objeto de autêntico conhecimento. Fulton Sheen amava dizer que o pecado é a única coisa no mundo do qual você não aprende mais por experiência.

Em nosso mundo cognitivo, a única referência indireta ao mal é como negação de algo bom (como doença não faz sentido senão como negação da saúde). Mesmo assim, a força da verdade permitiu que até essa ponerologia acabou evidenciando um certo elemento verídico, porque na visão gnóstica o mundo realmente real é aquele da luz, da plenitude (pleroma), o mundo puramente espiritual; a matéria é vista como carecendo essa realidade. De certa forma, é também uma privação. Mas esse restinho da verdade não goza de um pleno aproveitamento no sistema, uma vez que a matéria é palpavelmente presente como algo positivo na experiência humana, e assim, sem mais delongas, a matéria, em toda a sua realidade óbvia, acaba sendo identificado com o mal. Nas adaptações mais modernas, a mesma identificação aplica-se ao mundo humano, o qual também é visível é palpavelmente real. 

Para o gnóstico, “o conhecimento do bem e do mal,” longe de ser um fruto proibido ou uma maldição, torna-se uma conquista almejável e um norte “esotérico” para nossa conduta. De novo, uma grande parte dos gnósticos antigos viram essa existência má na matéria física mesma, especialmente na carne. Mas um gnosticismo moderno (identificado por vários analistas do mundo contemporâneo, como Balthasar, Voegelin e O’Regan) exibe uma análoga tendência em ideologias que restringem essa identificação a um povo, uma raça, uma filosofia, uma orientação política, etc., como essencialmente e irremediavelmente malvado. Em suma, proponentes de qualquer versão de “demonologia secular” também fazem parte dessa orientação metafísica do gnosticismo. O essencial é poder apontar com seu indicador ao mal para depois atacá-lo com êxito.

Demonizações da direita pela esquerda, ou da esquerda pela direita, por exemplo, caiem nessa confusão. No cristianismo existe essa divisão moral “a preto e branco” apenas no mundo angélico, e até lá, a influência dos anjos caídos entre os homens fica sempre limitada, e mesmo “aproveitada,” pela providência divina. A maldade humana é sempre variável e promíscua, a única linha divisória douradura, segundo a imagem famosa de Soljenitzyn, sendo aquela que passa pelo coração de cada um de nós. Isso nos leva à segunda característica. (Mais sobre o mal em breve.)

2) O aspecto antropológico:

Para o gnóstico, a situação do ser humano é sui generis em relação a esse mal. O homem acha-se circundado, ou até emprisionado nesse ambiente ou elemento mau. Mas porque toda a nossa cultura e pensamento parecem indicar algo mais do que material em nossa constituição, os antigos gnósticos falaram de nosso espírito como uma faísca imaterial que tinha caído da ordem divina e ficou cativada dentro do corpo humano e seu mundo. Há toda uma literatura fantástica para explicar – de formas bem diferentes e às vezes contraditórias – como essa “queda” aconteceu. Naturalmente, o gnóstico vai interpretar o pecado original segundo este esquema.

Em vez de pertencer à essência humana, o corpo e seu mundo são vistos como prisões ou opressores, e a salvação alcançável unicamente por uma fuga da prisão. A libertação seria viável apenas através de uma penetração no interior, camada por camada, rumo a essa faísca. Passando da nossa corporeidade para nossos níveis “psíquicos” (súteis), e de lá para nosso “espírito,” seguem os passos do nosso progresso iniciático. A linguagem de “camadas,” ou “níveis,” já deixa transparecer o espírito gnóstico. Desde que não é todo mundo que vai conseguir completar essa viagem até sua consumação no coração, existem gradações de gnósticos: aqueles hílicos (“materialistas,” mal transcendendo o corpo); aqueles psíquicos (chegando a algumas intuições); e os poucos pneumáticos (“espirituais,” os realizados).

No cristianismo, o acesso “democrático” à salvação, à graça, e até à sabedoria sempre foi um elemento alheio a essa visão. Para o gnóstico, a porta à verdade, a qual seria aberta a todo mundo no cristianismo, fica trancada para todo mundo a não ser para os hílicos. No cristianismo, há estágios de crescimento também, e existe uma peregrinação espiritual para todo mundo (as famosas vias de purgação, iluminação e união), mas tudo isso progrede em continuidade expressa com o credo, o código moral e o culto que aprendemos como crianças. A fé mostra o caminho do amor, e os dons do Espirito Santo elevam as virtudes até a meta: a perfeição no amor. E o amor se aperfeiçoa no encontro com uma Pessoa, aquela que seja o Caminho, a Verdade e a Vida. Então, qual seria, concretamente, o caminho da salvação para um gnóstico?

3) O aspecto soteriológico:

O gnóstico insiste sobre um certo tipo de conhecimento como unicamente libertador (ou seja, fonte de “salvação”), e certos mestres e métodos unicamente capacitados para dar acesso a ele. A passagem decisiva não é entre pecado e conversão, e sim entre ilusão e iluminação. A exigência cristã sobre o fundamento imprescindível da humildade e a meta suprema do amor, falta, ou pelo menos fica seriamente re-interpretada em termos cognitivos.

Para o gnóstico, é o conhecimento que ocupa o orgulho do lugar – não a humildade e não o amor. Só pessoas “intelectualmente qualificadas” podem oferecer a iluminação cognitiva que revela a natureza desse mal e, em seguida, métodos apropriados para liberar sua faísca enterrada das garras da materialidade (ou, nas formas modernas, do controle de grupos humanos identificados como malvados). Esses mestres vão fazer o máximo para vincular seus seguidores à sua pessoa, e caracterizar outras possíveis fontes de guia como parte do mundo escuro e confuso. Tais mestres não são identificados pela sua humildade ou seu amor, mas apenas pelo poder do conhecimento (“knowledge is power,” como declarou Francis Bacon).

Típico também é uma tendência de confluir a noção de consciência (psicológica) com a de conhecimento, apresentando “níveis de consciência” mais altas como metas de uma libertação progressiva. Idealmente você chegaria a uma fundição da sua consciência e seu conhecimento em uma gnosis unificadora e soteriológica. Um exemplo de um proponente de uma teoria “integral” para unificar psicologia e espiritualidade (entre outras coisas), é o famoso guru do New Age, Ken Wilbur, que propõe 11 níveis ou camadas de desenvolvimento pessoal. Os seguidores de Wilbur são inúmeros, entre eles muitos profissionais e famosos. (https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_integral_thinkers_and_supporters)

O uso predominante de símbolos e mitos é especialmente marcante em movimentos ou filosofias de inspiração gnóstica (o que David Bentley Hart chama de uma “incontinência mitopoética”). Há uma insistência marcante sobre a importância da simbologia. O cristianismo, em contraste, coloca seu mistério fundamental (a Encarnação) dentro de uma história concreta e em um lugar particular. A comunicação da verdade no imaginário cristão é tipica e necessariamente a imagem, e não o símbolo. (ver meu post Imagens e símbolos) Não obstante, símbolos desempenham um papel também na fé cristã, como em todo conhecimento humano, mas na teologia e na arte sacra esse papel é rigorosamente subordinado às imagens. Isso porque os mistérios se manifestaram em espaço e tempo reais, em dimensões concretas e criadas. Quem coloque a simbologia cristã acima da iconografia cristã já tem pelo menos um pé no gnosticismo.

A ênfase bíblica e cristã na historicidade dos eventos chega até dentro do seu uso do gênero do mito. A linguagem simbólica e mítica – o mito sendo, em certo sentido, uma narrativa composta de símbolos – é usada para evocar eventos reais no passado remoto (criação do mundo, primeira queda do homem, etc.) ou em um futuro ainda além da descrição histórica (eventos escatológicos e apocalípticos). No entanto, esses dois extremos são entendidos como acontecimentos reais, embora que além da descrição literal. Eles não são meras metáforas ou vagas sugestões de realidades puramente espirituais, mas indicadores de coisas, pessoas e eventos reais, de certa forma ainda mais reais do que tudo aquilo que acontece entre o Alpha e o Ômega.

A universalização do simbolismo – a afirmação que tudo é símbolo – já está na beira do panteísmo, ou do monismo. Essas posições ensinam que a realidade criada seja, na verdade, nem criada, e sim emanada, ou pelo menos em uma continuidade com a essência divina. (ver meu post sobre panteísmo: O universo é uma selfie de Deus? ) Por outros termos, tudo que existe de forma contingente e limitado existiria apenas por ser uma manifestação inevitável de Deus (o “outro lado” de Deus, por assim dizer). No caso específico do gnosticismo, haveria, porém, uma dimensão “pródiga” da realidade: o mundo material (produzido por um demiurgo ou talvez uma Sophia que cai em erro), envolve uma ilusão, ou uma queda lamentável. Identificar, cognitivamente, essa ilusão ou esse “erro,” é parte do tesouro do conhecimento gnóstico.

A visão bíblica não nega que a criação “canta as glórias de Deus” (passim nos Salmos), mas essa música tem como Grundmotiv a gratidão pelo livre dom da existência, um dom dado livremente por um Deus de amor, e que inclui, enfaticamente, o cosmos físico. O cosmos não é necessário, e há uma multidão de outros cosmos possíveis, mas Deus criou esse aqui para nós. O tema não é sobretudo manifestação ou reflexão necessárias, mas um magnânimo gesto de amor, uma superabundância gratuita e por isso mesmo um presente que transborda e brilha – como cada presente – justamente por não ser preciso.

***

Podemos extrair desses três destaques o princípio dominante no gnosticismo em todas as suas manifestações – seja quais forem a sua origem, o seu estilo ou as suas metas secundárias: É o seguinte:

O mundo – o mundo físico ou, nas versões mais modernas, simplesmente o mundo humano – não é como ele aparece. What you see is not what you get (O que você vê não é o que você tem).

O mundo é visto ou como uma ilusão total (em formas radicais, mas também marginais) ou, nas articulações mais costumeiras, como um ambiente dominado por forças clandestinas e malvadas. Se você quer realmente entendê-lo, será apenas por meio de uma gnosis especial providenciada por certos gurus.

O parentesco de uma tal visão do mundo com teorias de conspiração de todo tipo é óbvio: “o que lemos nos jornais é mentira, os políticos agem  por influências de lobistas, as organizações ocultas controlam quase tudo”, e assim por diante. Existe uma vasta literatura que alimenta esses exageros, e quanto mais você lê esses textos, tanto mais você se entrega à ideologia sabichona do gnosticismo.

Como já mencionado, o cristianismo foi também integrado na visão gnóstica na Antiguidade, re-interpretando cada componente da fé cristã como parte da doutrina gnóstica. “O que tornou isso tão insidioso foi o fato de que os Gnósticos com frequência não quiseram deixar a Igreja.” (H.U. von Balthasar, The Scandal of the Incarnation, p. 1)  Mas 1) a doutrina da criação em termos metafísicos, e 2) a doutrina do pecado original como ferida, tendência e fraqueza, e não corrupção, em termo morais, faz com que o pensamento dos seguidores de Cristo – e especialmente na Igreja Católica, que no segundo ponto fez as definições cruciais – nunca virou um ambiente acolhedor para a cosmovisão gnóstica.

Para o cristão (e para outras religiões abraâmicas) o mundo é bom, a matéria é boa, e a carne (enquanto parte da natureza humana) é boa, como também seus prazeres; uma vez que o ser humano foi colocado no centro dessa criação material, “Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom” (Gn. 1,30). Aliás – e é isto que tem que ser destacado contra toda tendência conspiracionista – o mundo humano, a nossa sociedade, apesar de todas as guerras, as corrupções, a crueldade, a injustiça, os acidentes, as epidemias, etc., etc., apesar de tudo isso, a grande maioria dos homens opta por viver, e não quer morrer (por enquanto). Há mais carros que cheguem no seu destino do que aqueles envolvidos em acidentes; há incomparavelmente mais pessoas sem doenças terminais do que com; há muito mais dias sem terremotos, furações, tornados, etc., do que com. E assim por diante. (Escrevi um post sobre o equilíbrio precário entre o bem e o mal: Os 2 antípodas da transcendência)

Isso, contanto, não é motivo para sermos ingênuos. Este mundo, no final das contas, é muito triste mesmo. Mas se for insuperavelmente ruim e triste, a raça humana teria se suicidado em massa já há milênios. O fato que o amor, a generosidade, a beleza e a seda pela justiça sempre se reerguem, e lutam nova e corajosamente contra o ódio, a ganância, a feiura e a injustiça é suficiente para animar nosso desejo de viver e travar nossa guerra.

Mesmo quando o mal goza de alguns triunfos mais espetaculares (o Terceiro Reich, o stalinismo, o maoismo, os genocídios, o tsunami de 2004, etc.), ele finalmente é saudado e vencido por reações ainda maiores de virtude, bondade, sacrifício e heroísmo que transcendem, pelo menos em intensidade, as conquistas anteriores do mal. O bem está à frente da competição, mas o mal continua nos assombrando pela sua persistência (divinamente permitida). Teremos que lutar até nossa morte.

      * * *

Na segunda parte pretendo falar sobre as três sabedorias que se opõem, expressamente, às ideias gnósticas. Como veremos, para o cristão a sabedoria filosófica não é dominada pela sabedoria teológica, mas sim ambientada e lembrada da sua subordinação à Verdade em Pessoa. Essas duas sabedorias, por suas vezes, ficam ambientadas e alimentadas, progressivamente, pela sabedoria mística (aquela que chamamos um dos sete dons do Espírito Santo). Elas se fundam na âncora de uma humildade profunda e se orientam no alto e sempre desafiante ideal do amor, proporcionando suas pequenas doses de conhecimento apenas na ordem certa, e apenas àquele que está crescendo nessas duas virtudes. Todo conhecimento distribuído por pessoas arrogantes e preponentes, incapazes de aceitar crítica, e que atacam seus oponentes com ferocidade, já é poluído, por mais que contenha elementos de verdade.

Como diz Rémi Brague em seu livrinho, Curing Mad Truths, o problema com filosofias e ideologias erradas ou soberbas não é exatamente a falsidade do que ensinam, mas a desordem que colocam entre conceitos verdadeiros. Verdades “orfãs” são incomparavelmente mais danosas do que simples falsidades, porque a falsidade é fraca e se revela rápido. Verdades avulsas exibem resistência e certa durabilidade. São elas que dão ao Novo Testamento a única ocasião de falar de um “mau conhecimento” (“A ciencia [gnosis] incha; é a caridade que edifica.” I Cor. 8,1).

Verdades, mesmo descontextualizadas, continuem gozando do poder ontológico da “inteligibilidade,” que é a fonte metafísica da própria verdade. Santo Agostinho, um dos homens mais inteligentes que já nasceu na Terra, conseguiu livrar-se do mundo gnóstico do maniqueísmo apenas quando aprendeu a humildade – e há só um único método para aprender humildade: a aceitação paciente de humilhações; logo depois, deixou seu coração arder com o calor da Verdade ordenada. Aprendeu o sentido do ditado: Ubi amor, ibi oculus. (Onde há o amor, lá também há o olho.)

Estejamos alertas sobre o perigo de conhecimento desordenado – a essência mesma do gnosticismo – porque, nas palavras de William Blake: “uma verdade dita com má intenção derrota todas as mentiras da nossa invenção.” *

St-Augustine-of-Hippo

 

* “A truth that’s told with bad intent, beats all the lies you can invent.”

A Páscoa empírica

resur

Uma concepção comum e enganosa sobre o Cristianismo dirá que ele se baseia em crer cegamente em uma série de verdades abstratas com respeito a um Deus que é um e três, uma pessoa que é Deus e homem e um pão que não é algo, e sim alguém. No entanto, o lado mais abstruso desses artigos de fé seria elaborado tão somente nos séculos após as primeiras pregações dos Apóstolos. Implicitamente estavam sempre presentes, sem dúvida. Fazem parte integrante de um todo orgânico. Não obstante, vieram à tona mais tarde no crescimento desse todo, assim como flores e frutos surgem mais tarde na vida de uma árvore recém-germinada. As raízes e o tronco vêm primeiro, ou – para mudar a metáfora – os alicerces vêm antes das paredes e do telhado.

A fundação, nesse caso, foi entendida pelos primeiros seguidores de Cristo não como um ensinamento rarefeito, mas como um fato. O Cristianismo se sustenta, ou desmorona, sobre a verdade de um fato empírico. Todas as elaborações da teologia e do magistério dos concílios e dos papas surgiram subsequentemente a esse fato, cresceram em cima desse fato e apontaram insistentemente para esse fato. Sem ele, os ensinamentos teriam se tornado diáfanos sopros de ar. “Se Cristo não ressuscitou,” afirmou São Paulo sem rodeios, “logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé.”  Mas, o que isso quer dizer?

Vejamos: imagine uma pessoa que você conhecia e amava, mas que, como todos nós mais cedo ou tarde, morreu. Primeiro: imagine-a quando viva e vibrante, com sangue nas bochechas e um brilho nos olhos. Agora, imagine a mesma pessoa imóvel e pálida em seu caixão. Ora, imagine ela, poucos dias depois do funeral e no meio do luto ainda pesado, entrando pela porta da frente, se aproximando de você e dando um beijo no rosto.

Tão logo você tivesse superado a dúvida inicial – talvez andando em volta dela algumas vezes, beliscando seu corpo e checando a sua respiração – dificilmente você estaria inclinado a proferir abstrações ou ruminar sobre princípios metafísicos. Ao contrário, você sentiria que algo havia acabado de mudar para sempre em sua vida. E você começaria a contar a todo mundo sobre isso. O bicho-papão mais temido de todos – a morte – teria acabado de sofrer um dramático revés, e todo um universo de significados, outrora fixos e fadados, teria sido virado de ponta-cabeça.

Essa foi a primeira experiência do conteúdo do testemunho cristão – um testemunho da morte e ressurreição de um homem conhecido e amado por um grande número de pessoas comuns. Essa morte ignominiosa e inegável – um óbito tão definitivo quanto o de uma mosca esmagada sob a sola do seu sapato – fora testemunhada e lamentada por uma turba de espectadores, apenas para ser revertida e transcendida diante dos mesmos olhos humanos e no mesmo estranho mundo em que vivemos.

Se a palavra mártir significa testemunha, o que foi testemunhado aqui foi a intrusão de uma Vida pujante e transbordante neste mundo de morte inevitável. E a novidade (a mesma que deu seu nome ao Novo Testamento) foi no fato de que isso não se apresentou apenas como uma renovação “espiritual,” mas além disto, uma “reinicialização” corporal: moléculas e células sendo postas numa nova ordem do ser. Nada parecido com isso tinha ocorrido desde o primeiro Fiat lux de Gênesis.

Milhões preferiram a tortura e até a própria morte a negar esse testemunho. O brilhante e cerebral Saulo de Tarso era talvez o maior intelectual da sua época; em termos atuais, ele teria o equivalente a doutorados em Filosofia e Teologia. Mas o Saulo virou São Paulo de Tarso apenas quando algo lhe aconteceu que nenhuma escola de filosofia podia prever, nem nenhuma lei de Moisés antecipar. O fato da Ressurreição o levou de roldão, e nunca mais o superou. A raiz da fé cristã, bem como a fonte de toda a sua mais sublime teologia reside nisto. A chave para o desdobramento de todos os mistérios a serem definidos e admirados em séculos vindouros, é: jamais superar o fato empírico da Páscoa.

res

Cultos de personalidade

É fácil apontar aos cultos de personalidade obviamente fanáticos, como aquele do Mao-tse Tung, Hitler, Stalin, e dos tiranos norte-coreanos; ou, numa chave mais “espiritual,” do Bhagwan Rashneesh (“Osho”), do David Koresh, do Jim Jones, etc., e achar, com grande confiança, que você nunca cairia sob o encanto de um tal charlatão.  Quando, porém, você assiste aos vídeos e documentários sobre esses personagens e seus cultos,  e vê os rostos e ouvir as vozes nas entrevistas de seus seguidores, vai ver e ouvir entre eles algumas pessoas obviamente inteligentes, presumivelmente equilibradas, até pessoas profissionais (médicos, advogados, professores, etc.) – sem qualquer marca óbvia de fanatismo ou extremismo. Porém, estão cheias de convicção de que seu “guru” é simplesmente maravilhoso, e praticamente isento de falhas sérias. Chegam até lágrimas nos seus olhos ao falarem dele.

Os católicos têm um exemplo ainda mais preocupante na figura de Marcial Maciel, o célebre fundador dos Legionários de Cristo, uma das congregações masculinas mais bem sucedidas dos fins do século XX. Com milhares de membros jovens bem disciplinados e exemplares (e acrescento que estou falando com admiração sincera), é uma marca na história católica do século passado. Até São João Paulo II achou Maciel um homem exemplar, talvez até um santo.

Mas foi revelada aos poucos sua vida secreta e, finalmente, ficou claro que sua pessoa foi equivocada em matéria que qualquer teólogo católico consideraria gravemente pecaminosa (e a justiça civil, criminosa). Mesmo assim e apesar da fiabilidade dessas revelações, ele fez coisas boas – inclusive a própria congregação – e sua comunidade de padres está sobrevivendo apesar das manifestações bem públicas dos seus delitos.

Acho isso bom e rico em lições. Sem dúvida, os “sobreviventes” sabem distinguir bem entre os bons frutos e o caráter problemático do fundador, a quem eles, por anos e anos, tinham chamado – com grande afeição de devoção – nuestro padre (“nosso pai”).  O cristão sabe bem que Deus usa instrumentos às vezes altamente imperfeitos para realizar seus planos. Contudo, temos que manter os olhos abertos.

O fato é que mesmo pessoas extremamente dotadas e (especialmente) carismáticas podem sim fazer coisas admiráveis e atrair um séquito significante, mas sem ser realmente admiráveis nos olhos de Deus, ou de qualquer pessoa que tem longa e diferenciada experiência com seres humanos. Os seguidores mais comprometidos desses líderes são, amiúde, pessoas jovens – por definição, sem muita experiência de vida. Charme, em si, não é uma virtude.

Mesmo um Hitler ou um Stalin podiam ser altamente charmosos em relações sociais. Para discernir entre os confiáveis e os menos fidedignos precisamos critérios objetivos para identificar os líderes, os mestres  que – mesmo com grandes contribuições à nossa cultura, ou à nossa consciência política – talvez carecem algumas das virtudes mais cruciais para ficarmos minimamente do lado de Deus na grande luta que é a nossa vida.

Estou pensando em vários casos, tanto da esquerda quanto da direita. São líderes na Europa, nos Estados Unidas e na América Latina – tanto líderes políticos como culturais ou até religiosos – que podem atrair milhares de seguidores. Sugiro apenas que as pessoas apliquem esses critérios a qualquer um deles, antes de virar um “seguidor.” Pode até aprender muito com eles, mas para segui-los, busquem no caráter deles (ou seja, na personalidade moral), antes de mais nada, três sinais indicadores:

—A capacidade de aceitar crítica com graça e humildade. Quem fica tipicamente irritado e resistente a qualquer crítica às suas posições, sua pessoa ou seus atos, e tende a ridicularizar tais críticas e recusar a engajar as pessoas que as falam com tranquilidade e seriedade (ou aceitar debates públicos), não merece discípulos. Platão ficou circundado não apenas por discípulos submissos, mas também por colegas no mesmo nível dele (alguns dos quais discordaram fortemente com teses básicas do platonismo!). Aristóteles deixou um exemplo ainda mais impressionante. Ele ficou 20 anos na Academia de Platão, ouvindo posições das mais díspares, interagindo com elas e depurando suas próprias posições em diálogo com elas.

O que hoje em dia chamamos “peer review” (avaliação pelos pares) – mesmo se abusado e exagerado às vezes (como tudo nesta vida) – é uma manifestação sadia e realista daquilo que todo intelectual público precisa na definição e elaboração das suas próprias ideias. Quem trabalha sozinho, ou se gaba em ser “auto-didata,” é especialmente suscetível ao perigo de “endogamia intelectual.”  “He that is taught only by himself has a fool for a master” (Ben Johnson). 

Platão teve Sócrates e os desafiantes sofistas; Aristóteles teve Platão e sua turma; Plotino, Amônio Sacco e colegas; Agostinho teve Ambrósio e outros companheiros cultos; Tomás de Aquino, Alberto Magno e os colegas dominicanos, franciscanos e professores do clero secular….e assim por diante. Tomás, de bom escolástico, aprendeu engajar, ativa e respeitosamente, todas as abordagens plausíveis contra suas posições antes de articulá-las (as famosas objectiones). Quem não sabe fazer isso, ou algo análogo, não deveria ser seguido.

–Uma visão diferenciada (digamos, “colorida”) da realidade, sem a tendência a caracterizar as coisas em termos preto/branco. Especialmente desqualificador é a demonização de alguma corrente de pensamento ou de política e a recusa de identificar os elementos bons e positivos sem os quais, no final das contas, ninguém poderia aderir a eles absolutamente. No final das contas, é apenas a partir do bem nas posições a serem atacadas, que o ataque pode prosseguir com acerto e humildade.

–Medida e modéstia nas palavras. Alguém que nunca para de falar – que fala e fala e fala (especialmente possível hoje no mundo da mídia social!), que tem algo a dizer sobre tudo (mesmo coisas sobre as quais sabe pouqíssimo), e que dá a impressão de nutrir um amor exagerado pelo som da sua própria voz, não é um mestre confiável. O Hitler e também os ditadores do comunismo de cunho soviético são famosos pelos seus discursos de horas a fio. Um mestre verdadeiramente sábio será alguém que até prefere o silêncio, e que, pelo menos, costuma calar muito antes de abrir a boca.

Finalmente cabe observar que o apego pessoal a um professor ou mestre, pelo menos nos primeiros meses e anos de aprendizagem, é normal e praticamente inevitável. Começamos nossa vida como crianças com confiança totalmente acrítica em nossos pais, e é bom assim. Mas não é bom uma pessoa que chega na casa de 30 anos continuar viver sob a guarda-chuva dos seus pais e recusar a ganhar sua independência tanto econômica quanto intelectual.

master

É a mesma coisa com nossos professores; eles fazem uma contribuição preciosa à nossa formação por um tempo estritamente delimitado, e depois a relação deveria terminar. Teremos que reconhecer que eles são também humanos, que têm fraquezas e que um vínculo permanente de discípulo para com eles só vai prejudicar nosso amadurecimento. Há só uma grande exceção a isso; estou escrevendo este texto na Semana Santa, dedicada aos dias mais silenciosos daquele que é o Verbo em carne. Apenas sete brevíssimas palavras serão proferidas por ele Sexta Feira Santa à tarde. Enfim, Ele é a única personalidade que merece um culto.

Crucifixion-Definition-5841eb355f9b5851e56dbb11

So Much We Don’t See

ang

Before talking about angels, we should be reminded that a consideration of invisible realities need hardly be arcane, or the subject-matter as “supernatural” as one might suspect. Reflect, for a moment, on a few dimensions of the world we take to be quite real, but cannot pick up with our senses:

1) spatially: there is far more world, more cosmos, out there than your eyes can even approximately capture–immeasurably more. This is true whether we limit ourselves to the expanse of the Earth or include the more than one trillion galaxies currently spotted in our universe. That vast context, though unseen, both contains and conditions what you do see and experience. And these veiled immensities you accept without ever viewing them, and you are right in doing so.

2) chronologically: there are thousands of years of past time–and if we think geologically, millions–which you cannot now experience, or even remember, and yet which have profoundly influenced your world, and all that is in it. Beyond this, of course, lies our unpredictable future, even more out of view. All this you also accept as real (or soon to be so), although it’s never been a part of your sensory experience.

3) scientifically: we accept as a matter of fact that there are quadrillions of atoms buzzing within us and around us, but we can’t see a single one of them. Even light we actually never see in its own right; we see things in light, but the light itself (along with all other forms of electromagnetic radiation) never slips as such into our field of vision. We also promptly answer our cell phones, firmly convinced of the existence of highways of invisible radiation passing between them and our interlocutors.

But nothing drives this home more dramatically than the fact that for decades astrophysicists have been cautioning us that the vaunted conquests of modern science have only shown us about 5% of all the material reality that exists; the other 95%–so-called “dark matter and energy”–still remains largely unidentified. Nonetheless, this invisible world has an enormous impact–as to gravity and acceleration, I am told–on the modest 5% that we do (more or less) understand.

Thus, on a material basis alone, any scientifically enlightened view of reality must concede that beyond the tiny slice of cosmos we are able to perceive, there is incalculably more that is unseen. And despite its invisibility–whether intrinsic or due to circumstance–we tranquilly and confidently affirm its existence.

Now add to all this a fourth, and even more emphatically undisputed fact:

4) Virtually all of known historical cultures and religions have accepted the existence of one sort or another of subtle material or completely immaterial beings, usually of a personal nature. Among countless others, we read of hierarchies of Greco-Roman, Egyptian, Celtic, Nordic, Indian, Chinese, Andean or Meso-American gods, along with sprites, genies, fairies, elemental spirits, kamis and an almost limitless variety of minor deities. Only a small number of traditional skeptics of the past, and (of course) a large number of today’s confessional materialists have ever disputed this. These latter have become quite vocal in the last couple of centuries.

The irony is that contemporary nay-sayers inevitably call on modern science to underwrite this twilight of the gods. But despite their appeals, recent physics is often more skeptical about the solidity of the matter these doubters confide in, than about the reality of the spirits they impugn. And even more telling is the fact that science and faith, contrary to expectations, find themselves joining hands and agreeing on one incontrovertible fact: the totality of all that exists contains far more than what we can see and touch with our senses, explain with our reason, or even detect with our most sophisticated instruments. Far from coddling us in our doubts about spirits, today’s science gives us even less warrant than in centuries past for excluding the angels from our conspectus of reality.

From my forthcoming book, The Other World We Live In, Angelico Press, 2021. Printed with permission.

Melchizedek and the Magi

Melch

Two seemingly peripheral figures in the pages of Scripture look somewhat enigmatic when viewed alone. But they begin to glow with meaning when considered together. In contrast to the two towering protagonists – Abraham and Christ – who stand at the center of the main Old and New Testament stories, these two ostensibly minor figures are totally subsidiary; members, one might say, of the supporting cast. Still, for a few moments, their episodes in the overall narrative almost steal the show.

No one is more decisive for the whole Old Testament story than the patriarch of patriarchs, Abraham. Three world religions are often termed “Abrahamic” because of the founding importance they give to this man and his deeds. Genesis 12-25 tells of grand occurrences in his life, such as his journey to Canaan from Ur of the Chaldees, his battles with formidable foes, the great Promise he receives, the miraculous pregnancy of his aged wife and the mysterious Sacrifice he was summoned to make but prevented from performing – all of these stand in high profile as we meditate upon the man Christians have come to call the “Father of our Faith.”

From Abraham’s loins will come the Chosen People, and for Christians finally the Church. Understanding him to be the great father, the point of departure of the story of salvation, would seem to be compromised by placing anyone else over and above him. However, this does seem to happen in a couple of verses (18-20) in chapter 14:

“And Melchizedek king of Salem brought out bread and wine; he was priest of God Most High. And he blessed [Abraham] and said: ‘Blessed be Abram by God most High, maker of heaven and earth; and blessed be God Most High, who has delivered your enemies into your hand!’ And Abram gave him a tenth of everything.”

No more mention is made of this mysterious figure in the Old Testament. Or almost none. There is an exception in one striking poetic reference in Psalm 110. It is brief, but it blows open the implications of this king/priest who intrudes almost illogically into the Abrahamic narrative:

“…From the womb of the morning like dew your youth will come to you. The Lord has sworn and will not change his mind, ‘You are a priest forever after the order of Melchizedek.'”

Christian theologians have struggled to understand this “order,” this sacerdotal lineage, prior to and thus superior to the Levitical line which still lay in the loins of Abraham. What seemed most logical was to identify Melchizedek as a figure of Christ. That might have been enough. However, the Letter to the Hebrews only adds to the mystery in its chapters 5-7. Anyone who takes the New Testament seriously has to give due attention to what is written there. For example:

“…He [Melchisedek] is without father or mother or genealogy, and has neither beginning of days, nor end of life, but resembling the Son of God he continues a priest for ever. See how great he is!…” (Hb. 7, 3-4)

Some Hebrew traditions identified him with Shem, son of Noah, whose descendents would indeed include Christ himself. Sounds promising, but unfortunately we know Shem’s geneology all too well, whereas Melchizedek is supposedly without one. Again, some early Christian theologians assumed he was a pre-Incarnational epiphany of Christ himself. But if there is a “pre-Incarnational” Christ at work in the ancient world, this will inevitably open up a number of questions regarding non-Christian religions, most notably the most developed and primordial religions of the East.

From other quarters, esoteric speculations have identified Melchizedek with everyone from Hermes Trismegistus to Enoch and even Zoroaster. Documents are too scarce to confirm or give the lie to any of these identifications. But their variety does give witness to what everyone senses: whoever Melchizedek was, he was extraordinarily important.

img_0518

The Biblical dramas – from both Old and New Testaments – do not unfold in Europe. From the beginning to the end they occur in the East, or in what is certainly to the east of the region that will one day be known as Europe. Even Eden was “in the east” (Gn. 2,8), and after the Fall, the cherubim were placed “at the east of the garden of Eden…to guard the way to the tree of life.” (3,24) Of course, St. Paul will venture across the Aegean and finally to Rome, but by then the Gospel drama will have achieved its climax. Paul was just a courrier of the resultant message. Otherwise, the furthest westward reaches take us only to Egypt – both with the Hebrews themselves before the Occupation and the Holy Family before Nazareth. But few will call ancient Egypt a part of the “West,” however defined.

When surveying the great surges of philosophy and religion that emerged from Greece and Palestine, we don’t always take into consideration the degree of commerce and contact between the eastern Mediterranean and the Persian, Indian and even Chinese worlds beyond. The singularity – indeed, the “exceptionalism” – of both Greek science and art, on the one hand, and Jewish and Christian religion and morals, on the other, can still maintain its profile within the context of a robust east-west cultural osmosis. But the significance of the East has recently moved into new prominence due to modern contact with India and China, and with still evolving research into the common legacies and interactive influences between them and the West.

We are told that Melchizedek was the “king of Salem,” that is “king of peace,” which could mean a particular place or quite possibly a supernatural function. Whether or not Melchisedek actually hailed from east of Canaan, he certainly comes from the fountainhead of all religion, “without father or mother or genealogy,” and in that sense from a symbolic East. When we turn, however, to the Magi in St. Matthew’s Gospel, we stand clearly before representatives of the geographical Orient.

Countries as diverse as Yemen, Saudi Arabia, Iran and even India have claimed them as their own. As always happens with world-changing but mysterious events, traditions and legends have grown apace, with the number of the Magi varying from three to a dozen or more; some will locate the current resting place of their relics near Tehran, others in Cologne. They’ve been given names and grown into integral figures of the Christmas manger scene. Consensus tends to identify them as Zoroastrians from Persia, or, perhaps more likely, as Chaldean astrologers from Abraham’s original home. Back then, astronomy and astrology were so interlocked that any separation of the movements and the meaning of the stars was unthinkable. The behavior of some of those stars indicated to them that a king was to be born in the west.

These Oriental outsiders were allowed to see and venerate the Messiah before a single Pharisee, Sadducee, Scribe or Priest of the Chosen People could even get close.  And the visit of these men from the East would unwittingly cause the Holy Family to move to the west, to Egypt (thanks to Herod). Decades later, St. Paul would also go west, but the Apostle St. Thomas would go east, all the way to India. With him, followed by subsequent waves of Syrian missionaries, Christianity would bring its graces and grow in Asia long before ever becoming a “European” religion.

Later Portuguese missionaries would change that, of course, and the crucial contributions of St. Paul and then of Greek philosophy and Roman law would enter instrumentally into the formulations and organization of Christian faith throughout the world. But in the East this would only come after more than a millenium of Asian Christianity had told its story to eternity. The now often forgotten Christianity of the East and its legacy is at least as important as the one we Westerners identify as our own. Both Melchizedek and the Magi may have a lot to teach us if we have the good fortune of meeting them in the afterlife. *

adoration-of-the-magi

The Lost History of Christianity: The Thousand-Year Golden Age, by Philip Jenkins (HarperOne, 2008) is a good guide to what we have forgotten.

Sobre o meticuloso ritual do Ano Novo

spiralclock-smaller

Até mesmo no Brasil, meu país adotado, onde uma massiva e endêmica impontualidade grassa por onde quer que se olhe, quase todas as almas estarão acordadas, segundos antes da meia-noite de 31 de dezembro, com os olhos colados num relógio. Escrupulosamente farão a contagem regressiva para o novo ano civil. O começo de celebrações religiosas, aulas de escola e compromissos de todo tipo são perdidos por margens de até uma hora (ou mais), mas o começo do novo ano secular é consagrado com uma precisão a toda prova. A diferença entre 23:59 de 31/12 e 00:01 de 01/01 é saudada como uma transfiguração mágica e arrebatadora, enquanto a diferença entre o Advento e o Natal sumiu quase totalmente; e a linha divisória entre a Quaresma e a Páscoa também praticamente desbatou. A difusão virulenta das festividades do Carnaval tem alguma relação com a Quaresma, é verdade, mas a Quarta-Feira de Cinzas com frequência escorrega (assim como o resto do ano litúrgico) dentro da longa sombra da Terça-Feira Gorda.

A razão para isso é simples. Quando a religião declina, a religiosidade permanece – apenas muda de endereço; quando não mais se acredita na transcendência, o mundo imanente torna-se o apoio vacilante do culto e da adoração. Nós esbanjamos com devoção fanática e pontualidade escrupulosa o simples e enfadonho instante da mudança de um 2019 para um 2020. Nem sequer cai no solstício (uma boa semana antes)!

E almejamos o ritual com tanta intensidade, quase como um vício, porque nos falta aquele marcador do tempo no dia 25 de dezembro, quando o Cristo Menino foi deitado na manjedoura pela primeira vez desde o Natal do ano passado (em vez de ter sido visto já com frequência, em cada shopping, desde outubro); nos falta o divisor de águas entre as músicas de esperança do Advento e as músicas de alegria do Natal. E três meses depois, para maioria das pessoas, vai faltar também aquele frio na espinha quando as luzes da igreja se apagam todas e a lumen Christi, em forma de uma única vela, seguida por uma multidão de chamas, entra no santuário para a explosão de luzes na Páscoa. Hoje faltam aqueles momentos transformadores que alimentam a alma, e assim cobiçamos os substitutos seculares.

Quando os dias santos viram apenas dias de folga, nossos instintos religiosos órfãos buscam alhures suas regras e rubricas. Hinos religiosos menos cantados? Que tal um “hino” nacional num evento esportivo, com lágrimas nos olhos? Não se paga mais o dízimo? Ora, declaramos nosso impostos de renda, pontualmente, até a data mágica de 30 de abril. Esqueceu-se de como rezar? Tente alguns chavões do politicamente correto, e observe as cabeças inclinadas em reverência. Ou tente até a blasfêmia (que não passa de uma oração travestida—“Ô meu Deus!” “Pelo amor de Deus!”).

Entenda-me bem, não estou desencorajando as festividades de Ano Novo – pontualidade uma vez por ano é melhor do que nunca, e celebrar o começo do ano solar (ou lunar) é uma tradição antiga que merece respeito. Portanto, ergamos um brinde mesmo. E que tal uma resolução de Ano Novo de remarcar aquelas datas no calendário que vão marcar nossa passagem para eternidade muito mais do que o primeiro dia de janeiro? Ao contarmos os últimos segundos do ano civil, deveríamos nos lembrar – se só por um instante – que um dia estaremos contando nossos últimos segundos na Terra. O fim da nossa brevíssima estadia no mundo vai chegar com uma pontualidade mortal.

a-boy-sits-in-a-tomb-decorated-with-candles-and-yellow-marigold-flowers-FE5P1R

On the Meticulous Ritual of New Year

spiralclock-smaller

Even in my adopted country of Brazil, where a massively endemic unpunctuality rules the land, nearly every soul will be awake, seconds before midnight on Dec. 31, glaring at a clock and scrupulously chanting the countdown to the new civil year. Beginnings of church services, school classes and appointments of all sorts are missed by margins of an hour or more, but the beginning of the new secular year is hit with bull’s-eye precision. The difference between 11:59:59 p.m. on Dec. 31 and 00:00:01 a.m. on Jan. 1 is greeted as a magical and rapturous transfiguration, whereas the difference between Advent and Christmas has all but vanished; and the line between Lent and Easter has faded away as well. The amoeba-like spread of Carnival festivities bears some relationship to Lent, it is true, but Ash Wednesday usually slips (along with the rest of the liturgical year) into the long shadow of Fat Tuesday.

The reason for this is simple. When religion declines, religiosity remains – it just shifts its abode; when transcendence is no longer believed in, the immanent world becomes the shaky support for cult and adoration. Thus we lavish with worshipful devotion and obsessively punctual observance the bland instant in which a 2019 becomes a 2020. It doesn’t even fall on the solstice!

And the ritual is coveted, almost addictively, because we are missing a defining time-marker still inherent in our culture: the cut-off nature of the date of December 25, when the Christ Child is laid in the manger for the first time since last year’s Christmas (instead of being seen in the shopping centers since October), with a neat and dramatic sundering of Christmastide from Advent, and cheerful Christmas songs replacing the longing, wistful Advent tunes sung before the Coming; or, three months later, the chill down one’s spine as a church is totally darkened and the lumen Christi, in the form of one sole candle, enters the sanctuary, followed by dozens of flames in its train. That explosion of light, like a sudden sunrise, begins the Easter vigil. All these soul-filling moments are gone, and accordingly, we lust after secular surrogates.

When holy days become holidays, otherwise uplifting days become “days off,” and our orphaned religious instincts look elsewhere for their rules and rubrics. Religious hymns no longer sung?  How about a national anthem at a sports match, with hands on heart and tears in the eyes (in Brazil, they are actually called national hymns). Tithes all gone?  Let’s declare our income tax before the mystical date of April 30. Forgotten how to pray?  Try intoning one of the politically correct buzzwords of our day and watch the heads bow in reverence. Or maybe blaspheme a bit (after all, it’s just prayer in drag; how many times do you hear “Oh my God!” during the week?).

Now I am not discouraging New Year’s festivities – once-a-year punctuality is better than never (speaking here especially to Brazilians), and the solar (or lunar) year’s inauguration is a hoary tradition that deserves respect. So let us lift a glass indeed. But as we countdown the last gasps of our civil year, let us briefly recall that one day – soon – we will be countdowning our own last gasps, and all those neglected holy days of the year will prove to have been far better training for that final transition than the confetti and champagne of January 1. This New Year could possibly be our Last Year, and our connection with lasting things be far more vital than our distracting innovations. Even though we propose to hail the new and to salute the promises of the future, we are still haunted by the perennial and ancient. “Auld Lang Syne,” after all, simply means “long, long ago.”

a-boy-sits-in-a-tomb-decorated-with-candles-and-yellow-marigold-flowers-FE5P1R